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Terço da vó Mariquinha

08 de agosto, 2019
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Amor de Mãe. Meus filhos nasceram bem antes da hora

Saíram de mim direto pra uma incubadora de CTI, onde maturaram durante longos e difíceis meses. Eram quatro bebês, dois não sobreviveram. Num desses dias de muita dor, ganhei de uma amiga querida um presente especial. Patrícia guardava com devoção um terço que herdou da vó Mariquinha, que partiu deixando saudade e muita sabedoria. Sempre que a vida apertava, Pati segurava o terço na certeza de que encontraria amparo e luz. E encontrava.

Eu sempre soube do amor devoto de Patrícia com a avó, o que tornou o presente ainda mais simbólico. Apeguei-me a ele muitas e muitas vezes, com a mesma devoção. Meus filhos cresceram, deixaram o CTI, e, aos poucos, a vida foi retomando seu curso. Os tempos sombrios do hospital foram ocupando um lugar na memória, sem grandes repercussões na rotina.

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Passados sete anos, Patrícia viveu uma dor muito doída. Daquelas difíceis de amparar. Meu coração ficava pequeno pensando no sofrimento dela. Aí, um dia, fui até a caixinha de lembranças dos meus bebês, que a essa altura não eram mais tão bebês assim, e reencontrei o terço da vovó. Fiz uma oração de gratidão e entreguei a Patrícia dizendo: o terço é seu. Ele precisava voltar pra você. Nos abraçamos fortemente.

Isso tem cinco anos. Patrícia agora mora em Brasília, onde o terço se fez necessário de novo. Desta vez, pra socorrer a mãe aflita de um amigo que partiu cedo demais. Pati me contou a história pelo computador. De lá, ela teclava e chorava. De cá, as lágrimas também escorriam. O terço acolheu a mãe do amigo por um tempo e depois, de forma quase mágica, foi devolvido mais uma vez à dona.

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Fiquei pensando na corrente do bem que muitas vezes vivenciamos sem nem perceber. Quando ganhei o terço da Pati fiquei muito tocada pelo desprendimento que ela teve. Eu que sou tão apegada às minhas memórias não me imagino capaz de um gesto assim. E como doar é transformador! Não doar objetos que não nos servem mais. Isso é fácil. Raro é doar palavras certas, olhares verdadeiros, abraços acolhedores, afagos despretensiosos, colo silencioso.

O terço da vó Mariquinha está de volta às mãos da dona, mas tenho certeza que, no tempo certo, acalmará outros corações. Parece ter sido predestinado a isso. E não estamos falando de fé. Estamos falando de dar sem esperar em troca. Estamos falando de querer bem, de estender as mãos, de ter empatia, de oferecer o que temos de sagrado. Custa? Sim. Custa amor. Obrigada, Pati, por tanto!

Foto: Cacá lanari

Sobre Viviane Possato:

Viviane Possato, repórter e escritora, 43 anos. Jornalista com 20 anos de experiência em redações e assessorias de imprensa. Formada em Jornalismo (1998) e Relações Públicas (1999) pela PUC-MG. Cursou pós-graduação em Políticas Públicas (2005) e em Formação Política e Econômica da Sociedade Brasileira (2000). Trabalha como repórter de televisão há 17 anos e é colunista do Jornal da Cidade desde 2014.

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