Jornal da Cidade BH | Notícia boa também dá audiência!

Olhos conectados ao coração

11 de julho, 2019
Jornal da Cidade BH Notícia boa também dá audiência!

Amor de mãe. Meus filhos têm 11 anos e eis que decidiram participar de um projeto de voluntariado na escola

Todas as sextas-feiras trocam o videogame pelo bingo com idosos do asilo. Passam a tarde lá ajudando com os lanches, cantando e conferindo as cartelas de jogo. Achei que o entusiasmo duraria pouco, mas a alegria deles se consolida a cada semana. Enzo e Francisco chegam em casa cheios de história.

Sei que na casa de repouso tem a dona Maria José, uma senhorinha falante que adora contar sobre a infância no interior de Minas. Lá também mora o seu Joaquim, que detesta que mexam na cartela de bingo dele. “É um pouco rabugento, mamãe, mas é legal.” Ah, tem também o seu Normando, que pede abraço pra todo mundo.

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Um dia perguntei por que eles gostam tanto de ir lá. “Eles precisam de ajuda, mamãe, e ficam felizes quando a gente chega cantando pra eles.” Abracei meus filhos cheia de gratidão. Que bom ver nossas sementes brotando. Como é bonito ver nossos filhos escolhendo bons caminhos pra trilhar. De alguma forma, acho que tenho conseguido ensiná-los a olhar pro lado e perceber o outro.

A empatia vem do coração, mas é também um exercício diário. Uma construção que compete aos pais. Desde que meus gêmeos eram pequenininhos eu pedia ajuda com as sacolas do supermercado. Pegava as mais levinhas e distribuía entre os dois. Eles saiam desengonçados, fazendo graça com as compras. Quando cresceram, a brincadeira de infância virou gesto natural. É mais do que uma gentileza. Eles entenderam que ajudar é obrigação.

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Não, não tenho dois anjinhos em casa que acordam dispostos a arrumar as próprias camas e lavar as xícaras do café da manhã. Tenho filhos comuns, que deixam toalha no chão, roupas espalhadas pelo banheiro e material escolar desarrumado. Mas eles se tornam especiais quando percebem que não são desconectados de outras histórias. A maturidade vai se encarregar de colocar as bagunças da infância no lugar, mas já me sinto privilegiada por testemunhar a empatia.

Eu quero que meus filhos cresçam com os olhos conectados ao coração. Só assim eles serão capazes de enxergar que somos uma grande teia, com vidas que se cruzam e se entrelaçam. E o enlace é mais verdadeiro quando nosso coração consegue enxergar o outro.

Foto: Cacá lanari
Olhos conectados ao coração
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Sobre Viviane Possato:

Viviane Possato, repórter e escritora, 43 anos. Jornalista com 20 anos de experiência em redações e assessorias de imprensa. Formada em Jornalismo (1998) e Relações Públicas (1999) pela PUC-MG. Cursou pós-graduação em Políticas Públicas (2005) e em Formação Política e Econômica da Sociedade Brasileira (2000). Trabalha como repórter de televisão há 17 anos e é colunista do Jornal da Cidade desde 2014.

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