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Amor de Mãe: rocambole de doce de leite

14 de maio, 2020
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Coluna. Na cozinha simples, com chão de cimento batido, jamais faltaram mesa farta, açúcar e afeto.

Na casa sempre cheia de filhos e netos a comida não saia da mesa. Café da manhã emendava com almoço, que dava lugar ao lanche da tarde e em seguida vinham jantar e ceia. Dinheiro era contado, mas vovó Eny tinha o dom de fazer a comida render em receitas que só se via na cozinha dela. Angu recheado com carne moída e queijo, por exemplo, eu nunca mais experimentei depois que ela se foi.

A vida era tão doce por lá. Açúcar tinha aos montes. O café até podia ser ralo, mas a doçura chegava a colar na boca. Quando fecho os olhos, parece que ainda escuto ela repetindo: “às vezes, eu acho açúcar sem doce, minha neta”. Era com doses generosas de açúcar que ela preparava minha lembrança mais saborosa: o rocambole de doce de leite.

Todo 23 de junho, mal os olhos se abriam, o telefone já tocava: “vem buscar seu rocambole, minha neta”. Era assim que vovó me presenteava em todos os aniversários. Não era privilégio de neta afilhada, não. O presente era o mesmo pra todos os netos e filhos. Um ritual.

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Vovó Eny sempre gostou de presentear. Tinha uma bolsinha escondida no fundo do armário onde juntava todo dinheiro que conseguia. Mas acho que ela nunca encontrava notas à altura do afeto que carregava no peito. Um dia, deixou de comprar lembrancinhas e passou a fazer o que ela mais sabia: adoçar a vida.

Não falhava um aniversário. O rocambole vinha enrolado num plástico transparente e derretia na boca, de tão macio. A gente se lambuzava naquela massa coberta de açúcar e recheada com doce de leite. Certamente ganhei outros presentes de vovó Eny, mas a memória se fez no ritual açucarado.

Vovó achava aquilo simples demais e sempre reclamava que queria ter condições de comprar um presente “melhor”. Mal sabia ela que os sabores daquela cozinha valiam tão mais.

A quarentena me levou pra cozinha de um jeito que nunca havia estado antes. Do café da manhã ao jantar. Cansa? Sim. Eu reclamo? Muito mais do que deveria. Mas, numa dessas tardes frias de outono, me percebi repetindo gestos de vovó Eny com pequenos rituais culinários.

Ando descobrindo que cozinha é espaço de memórias, afetos e sabedoria. No fundo, a vida é como um livro de receitas. Existe o tempo pra cada passo, não se apressa o cozimento, um descuido pode fazer tudo desandar, a delícia está no equilíbrio dos temperos, embora um punhado a mais de açúcar não faça mal a ninguém. Vovó Eny soube temperar as relações com uma doçura que era só dela.

 


Sobre Viviane Possato:

Viviane Possato, repórter e escritora, 43 anos. Jornalista com 20 anos de experiência em redações e assessorias de imprensa. Formada em Jornalismo (1998) e Relações Públicas (1999) pela PUC-MG. Cursou pós-graduação em Políticas Públicas (2005) e em Formação Política e Econômica da Sociedade Brasileira (2000). Trabalha como repórter de televisão há 17 anos e é colunista do Jornal da Cidade desde 2014.

2 Comentários

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    Eunice Carvalho 29 de maio de 2020

    Que delícia de conto, me vi lá no interior onde nasce, minha avó presenteava os netos com biscoito de polvilho, assado no forno a lenha. Uma maravilha!

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    Anamares Teixeira Soares 15 de maio de 2020

    Fiquei emocionada ao ler sua crônica “ Rocambole de doce de leite”
    Seu jeito de contar , passou como um filme em meu cérebro e fui acompanhando passo a passo …
    Linda história !
    Memórias que ficam e marcam nossa vida

    Seu conto tem muito de mim , ou de todos nós !!!
    Obrigada !!!
    Parabéns !!!!

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