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Amor de mãe: Jogo da vida

14 de março, 2019
Por: Viviane Possato
Texto: Viviane Possato - [email protected]
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Coluna. Meus filhos são gêmeos e têm personalidades distintas. Quase opostas. E gostos muito diferentes também

Por exemplo, um sempre teve vocação pro esporte. Ama futebol, como a maioria dos garotos da idade dele. O outro prefere criar suas próprias competições. Desde pequenininho, vivencia intensamente o mundo imaginário. É capaz de passar horas imerso na realidade que construiu. Até joga bola, mas com amigos astronautas durante uma fantasiosa viagem espacial.

Este ano eles mudaram de colégio e teve teste para os times de esporte da escola. Duas opções: futebol e handebol. A escolha do Francisco era óbvia: futebol. Enzo não queria fazer teste pra nada. Eu insisti, embora esporte também nunca tenha sido minha atividade preferida. Há os benefícios pra saúde, a socialização, enfim, é importante e ponto. Fiz a inscrição dele pro handebol, já que futebol estava fora de cogitação. E lá foi ele com passos lentos, os ombros encurvados pra frente, numa preguiça gigantesca de disputar a vaga que nunca quis ganhar.

Foram duas semanas de testes. O professor incentivava com aquelas frases típicas de encorajamento, palmas enérgicas e gritos. Pra corrigir e pra aplaudir. Eu espiava pela arquibancada a desenvoltura tímida de um menino pouco à vontade com a disputa. Enquanto isso, na quadra de futebol, Francisco esbanjava autoestima com a bola nos pés.

Na segunda semana de teste, pra minha surpresa, Enzo estufou o peito e entrou em quadra com uma desenvoltura diferente. E quando terminou o treino ele veio correndo pra me dizer: “mamãe, você viu como eu fui bom? Eu quero ser do time”. A alegria dele me congelou por dentro. Minhas vistas escureceram e minhas pernas ficaram bambas. Naquele instante tive certeza de que meu filho vivenciaria a primeira grande decepção da vida dele. E a culpa seria minha, afinal, a princípio, nem disputar a vaga ele queria. O resultado sairia no treino do dia seguinte e eu não tive mais sossego.

O resultado do futebol saiu primeiro e não houve surpresas. Francisco passou no teste e comemorou a vitória que ele nunca duvidou que teria. Nem eu. Foi numa terça-feira. Na quarta, sairia a escalação do time de handebol.

Na quarta cedinho peguei o telefone pra ligar pra escola. Tinha certeza de que eles entenderiam a situação. Meus filhos são gêmeos, um passar e outro não seria um trauma. Claro que compreenderiam. Mas, no segundo toque, desliguei o celular e chorei copiosamente. Compreendi a tempo que pedir a vaga pro meu filho não era meu direito.

Vencer e perder são construções da vida. O aprendizado está é no caminho. Evitar a frustração do meu filho não faria dele uma pessoa mais feliz. Lágrimas são lamentos de um coração que está aprendendo a se reconstruir. E a reconstrução é linda. A dor fortalece e ensina. O resultado da escalação? Enzo foi aprovado no teste. E tem andado por aí com ombros erguidos e sorriso de campeão. Claro que chorei de alegria. Claro que o coração de mãe agradeceu aliviado o adiamento das dores inevitáveis da vida. Segue o jogo.

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Sobre Viviane Possato:

Viviane Possato, repórter e escritora, 43 anos. Jornalista com 20 anos de experiência em redações e assessorias de imprensa. Formada em Jornalismo (1998) e Relações Públicas (1999) pela PUC-MG. Cursou pós-graduação em Políticas Públicas (2005) e em Formação Política e Econômica da Sociedade Brasileira (2000). Trabalha como repórter de televisão há 17 anos e é colunista do Jornal da Cidade desde 2014.

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