Jornal da Cidade BH | Notícia boa também dá audiência!

Entrevista com Flávio Carsalade

08 de agosto, 2019
Jornal da Cidade BH Notícia boa também dá audiência!

BH Minha Cidade. Autor de um dos livros da coleção “A Cidade de Cada Um”, arquiteto revela sobre sua forte relação com a região

E o movimento passou a ser dos homens, a reconstruir barragens e a retirar com dragas e caminhões tanta terra para salvar sua criação, em lenta batalha contra os montes e as águas. O bucolismo de quem vê a calma horizontalidade das águas em contraste com os montes, a refletir não as curvas dos córregos, mas as curvas criadas pelo homem, não sabe que ali se esconde uma luta e uma celebração: a luta do homem para criar seus lugares e a celebração do belo que vem do diálogo que o homem faz com a natureza. Sejam bem-vindos à Pampulha.

Assim o arquiteto Flávio Carsalade resume o seu livro “Pampulha”, que faz parte da coleção “A Cidade de Cada Um”, idealizada pela Conceito Editorial e que propõe uma viagem sentimental pelas ruas, bairros e espaços de Belo Horizonte, para desvendar não só a geografia, mas também a alma, o sabor e as cores da cidade.

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Mestre e doutor em arquitetura e urbanismo, Carsalade é hoje professor da UFMG e conhece muito bem a Pampulha. Embora não seja morador da região, já foi secretário municipal de Administração Urbana Regional Pampulha da Prefeitura de Belo Horizonte entre 2004 e 2007 e, por isso, tem uma relação muito próxima com a região.

Nesta entrevista ao JORNAL DA CIDADE, ele mostra toda o seu conhecimento sobre a Pampulha.

JORNAL DA CIDADE Por que escrever um livro sobre a Pampulha?

FLÁVIO CARSALADE A Pampulha é o grande ícone de Belo Horizonte. Lugar que a população da cidade tem o maior carinho e que é por ela associado a qualidade de vida e lazer, onde as pessoas vão para passear e praticar esportes e os que moram nela, se sentem gratificados pelo ambiente local. Historicamente ela vem reafirmar a nossa modernidade nos anos 1940, já que Belo Horizonte nascera, ao final do Século XX, como a cidade moderna por excelência. Em nosso imaginário, BH é sempre esta cidade moderna, atual, contemporânea e a Pampulha é signo de tudo isto. Embora construída nos anos 1940, ela nunca perdeu seu ar futurista. Escrever sobre a Pampulha é celebrar a nossa cidadania belo-horizontina.

Qual foi o fato mais curioso que você descobriu sobre a Pampulha durante a produção do livro?

Há muito tempo venho pesquisando sobre a Pampulha e desde sempre aparecem novas faces curiosas. Talvez para o grande público o que possa surpreender é que, embora a Pampulha pareça um conjunto íntegro, ela nunca funcionou com seus quatro grandes edifícios simultaneamente e, mesmo aqueles que assim o fizeram, tiveram vida muito curta. O conjunto foi inaugurado em 1943 e em 1946 o jogo foi proibido no Brasil, fazendo o Cassino (Museu de Arte da Pampulha) cair na inatividade e, com ele, também a Casa do Baile. Nesse período, a igreja permaneceu fechada pela recusa da Arquidiocese em sagrá-la. Os anos dourados da Pampulha, auge do cassino, duraram apenas três anos, mas no imaginário popular o glamour parece ter durado mais tempo.

Você acha que a atmosfera da região na época em foi criada é a mesma de hoje? Ainda há magia na Pampulha?

A Pampulha é sempre mágica. Até hoje, como disse anteriormente, os prédios causam espanto e parecem futuristas. Para mim, é o auge de Oscar Niemeyer e Burle Marx. Surpreende aqueles que nos visitam e encantam repetidas vezes os da terra. Até a poluição da lagoa, apesar do mau cheiro e dos aguapés que, às vezes, aprecem, é mais suave no trecho da lagoa onde estão os quatro principais prédios de Niemeyer. A situação na outra metade do lago é bem diferente, mas a criação do Parque Ecológico luta bravamente contra a degradação das águas e propõe um novo local de apropriação urbana na região.

O JORNAL DA CIDADE está completando 60 anos. Como era a Pampulha de 60 anos atrás?

Estamos falando dos anos 1960. Nessa década, a Pampulha reafirmava sua vocação de lazer e esportes com a construção do Mineirão (1965), com o uso náutico da lagoa por lanchas particulares, com seus novos restaurantes. Nesse momento a cidade adorava passear na Pampulha e a poluição ainda não se assentara com a força dos anos 1980.

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Qual será o futuro da Pampulha na sua opinião para daqui a 60 anos?

O fato de ter sido considerada Patrimônio da Humanidade pela Unesco reforçou a agenda preservacionista do local e atraiu para ela os olhares do mundo. O futuro a Deus pertence, diz o dito popular, mas penso que, na verdade, ele pertence aos humanos, ao que nós faremos com ele. Por isso, a resposta à sua pergunta é: depende de nossas ações. Se soubermos preservá-la, incentivarmos práticas sustentáveis, continuarmos fazendo-a atrativa, impedindo usos e ocupações predatórias, ela será cada vez mais presente.

Mas se, ao contrário, não tomarmos medidas como a poluição difusa e a sua constante manutenção, se não cuidarmos da bacia que alimenta as águas, seu futuro será não o de um lago, mas de um parque no lugar onde hoje estão as águas, futuro certo de qualquer lago urbano sujeito a pressões metropolitanas, segundo muitos sanitaristas.

Embora não more na Pampulha, qual sua relação com ela?

Não moro na Pampulha, é verdade. Mas preservo para mim o gosto de nela poder passear, como alternativa de lugar. Mas reconheço a grande qualidade que é morar na Pampulha e muitas vezes cogitei em fazê-lo. Mas a vida acaba nos levando para lugares que às vezes a gente não espera, nem planeja. Morar na Pampulha é morar em um jardim.

Quais lugares na Pampulha são imperdíveis na sua opinião?

Todo o lago é imperdível. Também seus bons restaurantes são imperdíveis. Não ir ao Mineirão em dias de jogos é perder parte da emoção da vida. O campus da UFMG é um dos seus locais maravilhosos. Seus clubes são muito atrativos e gostosos. O Zoo é imperdível para as crianças. O Parque Ecológico veio a oferecer uma bela opção de lazer a quem visita à região, ainda mais sendo a orla tão estreita. Além do mais, é a única parte plana de BH, né? Viver a Pampulha é viver BH.

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