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Coluna Amor de mãe: sobre adolescer

12 de março, 2020
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Coluna. Quando a maternidade nasceu em mim conheci o meu avesso. Foi assim, desde quando meus filhos estavam na barriga. Nada foi convencional. Nada foi fácil. Meu despertar como mãe passou longe dos comerciais de margarina. Entendi rápido: conto de fadas não é pra mim. E tá tudo bem. Na verdade, tá tudo ótimo porque a vida é muito mais interessante longe da pretensa perfeição.

Quando descobri meu avesso, supreendentemente, vi o belo. É no avesso que a verdade se mostra sem filtros e a gente se percebe com mais generosidade. Assim, fui me permitindo errar sem aquela culpa assustadora que parimos com os filhos. Calma, não sou mãe sem culpa. Longe disso. Mas sigo me permitindo experimentar a liberdade que vem do perdão.

Só que mãe é bicho danado e mesmo que a gente se deite uma vida inteira no divã vai acontecer o ‘momento deslumbre’. É aquele instante em que os olhos do seu filho transbordam tanto amor e admiração que você acredita: opa, tá dando certo!

Essa ilusão costuma durar até o dia em que nossos filhos são possuídos pelos hormônios da adolescência. Aquele momento lindo do desabrochar, relatado com tanta poesia nos livros, mas que dentro das paredes da sua casa pode ser descrito como surto coletivo.

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No meu caso, o primeiro susto veio quando vi meu filho trocando de roupa. Era hora de dormir e quando entrei no quarto ele estava colocando o pijama. A rotina de sempre. Só que não me preparei pra ver aquele corpo transformado. Tentando sair do estado de choque, perguntei: já escovou os dentinhos, filho? Sim, eu falei dentinhos … e num instante aquele olhar que até pouco tempo transbordava amor passou a me fuzilar. Saí da condição de heroína pra mãe “sem noção” … e era só o início.

Daquela noite em diante nunca mais fui a mesma. Pelo menos não pelos olhos do meu filho. Ainda bem que fiz muitos anos de psicanálise e minha autoestima tá ok porque, gente, ter filho adolescente é ser desmistificada a cada segundo. A real é: nada do que você fala tem mais importância, nunca seremos descoladas aos olhos deles, não adiante pagar de moderna, tentar entrar no mundo da geração Y, Z, nem de qualquer outra letra do alfabeto. Esquece. A matemática é: o desabrochar do seu filho será igual ou maior a … fim de encantamento.

Passei a me lembrar das apresentações da escola cheia de nostalgia. Meus filhos subiam ao palco e eu já esperava pelos olhinhos deles me procurando na plateia. Nossos olhares se encontravam, eles suspiravam aliviados e sorriam. Daí pra frente os ombrinhos se erguiam e eles se enchiam de coragem. Deu uma baita saudade de ser alicerce.

Revisitei meu avesso e a tristeza foi inevitável. A gente nunca tá preparada pra ver os filhos querendo se libertar de nós. Mas sigo tentando compreender que o desabrochar exige rompimento. Não há como se descobrir sem desfazer as amarras invisíveis do cordão umbilical. O despertar também acontece pela desconstrução. Também quero ver desabrochar em mim uma nova maternidade, quero renascer mais verdadeira e construir com meus filhos uma relação em que as diferenças estejam à mostra. Afinal, amor nunca careceu de perfeição.


Sobre Viviane Possato:

Viviane Possato, repórter e escritora, 43 anos. Jornalista com 20 anos de experiência em redações e assessorias de imprensa. Formada em Jornalismo (1998) e Relações Públicas (1999) pela PUC-MG. Cursou pós-graduação em Políticas Públicas (2005) e em Formação Política e Econômica da Sociedade Brasileira (2000). Trabalha como repórter de televisão há 17 anos e é colunista do Jornal da Cidade desde 2014.

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