Jornal da Cidade BH | Notícia boa também dá audiência!

As muitas pedras no caminho do futuro governador

13 de dezembro, 2018
Foto: Partido Novo
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Entrevista. Como o empresário que virou político, por causa de sua indignação, irá enfrentar os (muitos) desafios de um Estado em frangalhos

O jeito de gente simples do interior esconde um empresário arrojado e projeta um governador corajoso para enfrentar os muitos problemas que Minas Gerais precisa resolver.

Romeu Zema sabe dos desafios que tem pela frente a partir do dia 2 de janeiro de 2019, quando assumir o controle de um estado com a saúde financeira em frangalhos, com a máquina pública inchada e estruturalmente vulnerável.

Nesta entrevista ao JORNAL DA CIDADE, o futuro governador admite que não esperava mesmo ser vitorioso nas urnas. Mas, com muita humildade, mesmo com menos de 10% das intenções de votos, “não deixei de me dedicar totalmente à campanha”.

JORNAL DA CIDADE – Quando aceitou o convite do Novo, o senhor já imaginava uma vitória?
ROMEU ZEMA – Quando entramos em qualquer disputa na vida, não entramos para perder.  Sempre fui assim na minha vida. Mas, no caso da minha candidatura, tanto pelo fato de o partido ser literalmente novo quanto eu ser praticamente desconhecido do eleitorado, não esperava a vitória da maneira como aconteceu. Com muita humildade, mesmo quando ainda tínhamos menos de 10% da intenção de votos, não deixei de me dedicar totalmente à campanha. Estivemos em cerca de 200 cidades mineiras, percorrendo mais de 60 mil quilômetros. As nossas pesquisas internas demonstravam que poderíamos chegar ao segundo turno. A nossa ascensão já aparecia nestas pesquisas, mas não da forma como ocorreu nas urnas no primeiro turno. Depois, a campanha evoluiu junto com esse crescimento exponencial que tivemos.

A que atribuiu a sua vitória?
Na minha opinião, o povo mineiro – e o brasileiro – está realmente farto dos velhos moldes da política tradicional. O resultado destas eleições mostrou que a população quer mudanças. Se os políticos de sempre não fizeram uma reforma política, nos moldes que deveria ser feita, os eleitores se encarregaram de fazê-la nas urnas. Acho que o povo pensou: “esses que estão aí há décadas, já conhecemos e não fazem nada, então vamos apostar no que é novo”.

Como está sendo sua rotina?
Tenho feito inúmeras reuniões com os colegas do Partido Novo, com os parlamentares mineiros, com entidades de classe, com empresários, e participado de encontros importantes, como o que aconteceu em Brasília (DF), no dia 14 de novembro, entre nós, governadores eleitos e o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). E ainda estou em contato permanente com a equipe de transição do meu governo, que vem trabalhando incessantemente para fechar o diagnóstico da situação do Estado e elaborar as primeiras propostas que vamos implementar a partir do levantamento de dados.

Vai mesmo residir em um apartamento ou casa como mencionou na campanha?
Sim, vou morar num imóvel próprio ou alugado, ainda estou olhando. Não vejo por que eu deva morar num palácio. Sei que será uma economia mais simbólica do que de relevância diante do rombo do nosso estado, mas é uma mostra de que não vamos governar dentro de uma redoma. Distante da população. Continuo e continuarei próximo das pessoas.

Do dia 28/10 até agora, o que já pôde acessar sobre a situação do nosso estado?
As análises feitas pela nossa equipe de transição mostram um cenário preocupante, não apenas pela crise financeira, mas também pela falta de eficiência das políticas públicas. Em média, até o final de outubro, foram realizados e pagos 35% dos projetos estratégicos previstos no orçamento, enquanto os gastos foram de 50%. Ou seja, vamos assumir o governo com um atraso de cerca de 65% na execução dos projetos, mas tendo gasto cerca de 50% do orçamento previsto. As áreas mais afetadas são saúde, educação e infraestrutura. Também já verificamos que 23,6% dos cargos comissionados são ocupados por pessoal não concursado. São 3.223 cargos de Recrutamento Amplo (RA) preenchidos por não efetivos em funções de chefia na administração direta e indireta do Estado de Minas Gerais. Vamos reduzir drasticamente esse número de indicações políticas, valorizando os efetivos.

Como renegociar a enorme dívida de Minas Gerais?
Nosso consultor de economia vinculado ao Partido Novo em âmbito nacional, o Gustavo Franco, já está em contato com o Banco Central (que já foi presidido por ele), buscando renegociar a dívida que Minas tem com a União. Acreditamos que conseguiremos melhores condições em troca das medidas de austeridade que vamos tomar. Entre elas, a redução drástica de despesas, com o fim de mordomias, corte de 80% dos cargos comissionados, redução e fusão de secretarias. Também vamos rever contratos com fornecedores, buscando melhores condições. E ainda criando um ambiente favorável, acreditamos que vamos atrair empresas e, por consequência, aumentar a arrecadação de impostos, com o aumento da atividade econômica, mas sem aumentar a carga tributária.

O que prevalece nesta fase de transição?
O que prevalece é o trabalho intenso nesta fase de levantamento de dados. Contamos com o apoio de empresas voluntárias que estão nos auxiliando no recrutamento de pessoas capacitadas para trabalharem no estado e ajudarem Minas a voltar a trilhar o caminho do desenvolvimento.

Como será a relação com a Assembleia Legislativa de MG?
Nas minhas empresas, sempre procurei manter um contato direto com as pessoas. E é isso que também vou fazer no Governo. Já estou conversando com os deputados estaduais e federais eleitos por Minas, de forma que eu conheça cada um, saiba de que região é, conheça suas demandas. Manterei esse diálogo constante durante toda a minha gestão. Espero contar com todos os 77 parlamentares estaduais e não apenas com aqueles eleitos pelo Novo (o Guilherme Cunha, o Bartô e a Laura Serrano) ou dos partidos que nos apoiam. Acredito que todos nós, mineiros, queremos um jeito novo de governar e fazer Minas voltar a crescer.

Quais setores serão prioritários em seu governo?
Os setores são fundamentalmente saúde, educação e segurança pública. Entre as prioridades administrativas: regularizar o pagamento dos servidores públicos e os repasses para os municípios. Estas são nossas primeiras preocupações.

O que o senhor pretende trazer para Minas Gerais em termos de investimentos?
Queremos tornar Minas um lugar bom para se investir, simplificando processos estatais e reduzindo a burocracia para o empreendedor. Nosso ICMS, por exemplo, é de uma complexidade absurda, tem mais de mil páginas. Somos contra a ampliação da já pesada carga tributária, assim vamos trabalhar para que novos negócios sejam gerados no estado, com o incremento da receita pública a partir do girar da roda da economia. Acreditamos que, na medida em que possamos tornar Minas Gerais mais atrativa para quem quer investir, a instalação de empresas vai acontecer de forma acelerada, sejam elas de quaisquer setores.

E seu vice, qual será o papel dele?
O Paulo Brant vai ser “co-governador”; vamos governar juntos. Conto com sua competência e preparo para me ajudar a enfrentar este grande desafio que teremos pela frente.

Qual será seu maior desafio?
Acredito que o maior deles será reequilibrar as contas do Estado, voltar a fazer os repasses corretamente aos municípios, retomar o pagamento integral e em data certa ao funcionalismo público e conseguir fazer com que Minas volte a crescer.

Em que a vida de gestor pode contribuir para seu novo cargo?
Acho que pode contribuir muito. Em primeiro lugar, vou adotar a primeira prática da gestão privada que é gastar menos do que se ganha. No setor privado, se você não faz isso, a empresa vai à falência. A segunda coisa é medir o desempenho dos funcionários, valorizar a competência. Dentro disso, não vamos preencher os cargos do secretariado com indicações políticas, e sim, a partir de seleção feita por empresas especializadas. Como na administração privada, vou montar o melhor time que estiver ao meu alcance. Outro ponto é a tempestividade, ou seja, deixar de protelar. Vejo que, no setor público, há uma certa prática de deixar coisas para depois, para o ano que vem.

Quantas secretarias o senhor terá?
Nossa equipe de transição continua trabalhando nas análises sobre a estrutura do atual governo, para podermos definir exatamente quantos e quais equipamentos da máquina pública deveremos manter. O que posso adiantar é que, com certeza, o número de secretaria será reduzido, com cortes ou fusões. Das atuais 21, devemos baixar para entre 9 e 12.

Como gerir um estado com 853 municípios, com demandas totalmente diferentes?
Durante minha campanha, como percorri mais de 60 mil quilômetros e visitei cerca de 200 municípios, pude ver de perto realidades totalmente diversas. Sei que é um desafio e tanto governar um estado deste tamanho, com tantas necessidades diferentes. Ainda mais na situação difícil em que se encontra. Mas manterei sempre diálogo aberto com as prefeituras, sou municipalista e quero estar sempre perto de todo o povo mineiro, não pretendo ficar apenas tomando decisões atrás de uma mesa na Cidade Administrativa. Os governantes tradicionais se acostumaram a viver numa redoma, fora da realidade. Nós do Partido Novo, como o próprio nome diz, vamos inovar e governar em contato direto e diálogo com toda a população de Minas.