Jornal da Cidade BH | Notícia boa também dá audiência!

Mãe imperfeita

05 de outubro, 2017
Jornal da Cidade BH Notícia boa também dá audiência!

Ando encafifada com a chatice que se tornou a discussão sobre educação de filhos

As teorias surgem de tudo quanto é canto e promovem um bombardeio na sanidade mental de todos nós, humildes errantes. Não bastasse o peso natural de ser responsável pela formação moral, intelectual, cultural e emocional de um outro ser humano, agora vivemos a vigilância de uma sociedade intolerante cada vez mais especialista em julgamento de vidas alheias. É uma patrulha cruel, pouco acostumada a se colocar no lugar do outro. Festa de aniversário e a cena clássica se repete: “os seus filhos comem bala?”. Sim, respondo quase pedindo desculpas. No almoço, comem brócolis, cenoura, tomate, mas em dias de festa costumam se lambuzar de doces. Que me perdoem os extremistas, mas encher o bolso de guloseimas para comer no café da manhã pós-festa alimenta a infância.

Querem tirar o doce da criança e a doçura da liberdade. Criança corre e ponto. Faz bagunça e ponto. Mas tem gente que defende corrida sem barulho, sem tombos, sem sujar a roupa. Há quem acredite na bagunça sem tirar nada do lugar, sem desafiar as regras, sem levar bronca. Isso não é infância. É vida de adulto. Pais existem para impor limites, não para impedir que a infância aconteça.

Dia desses me perguntaram: como você administra a agenda dos gêmeos? Agenda? Respondi com certo espanto. Meus filhos não têm agenda. Eles vão para escola diariamente e duas vezes por semana praticam esporte. O tempo da infância tem que ser livre. Mas vai haver alguém para apontar o dedo com desdém porque certo mesmo seria assim: segunda e quarta, inglês e espanhol, afinal o mundo corporativo é competitivo demais e não há espaço para os não fluentes em línguas estrangeiras. Terça e quinta? Futebol e skate. Skate porque ele gosta e futebol porque menino tem que saber jogar bola, faz parte da socialização. Sexta? Música, claro. É essencial que a criança desenvolva habilidades motoras e apure a sensibilidade.

Gente, não se trata de desmerecer o esporte, a música, a língua estrangeira. Óbvio que não! O que me aborrece é a ideia de um pacote de atividades obrigatórias como garantia de boa educação. As caminhadas são individuais e não existe receita nessa difícil tarefa que é educar. Ainda que você se desdobre para cumprir a função motorista de filhos, ainda que você se mate de trabalhar para ter orçamento para tudo isso, ainda que você leve seu filho à exaustão com esse monte de “agenda”, ele pode seguir numa direção completamente diferente da que você traçou. É direito dele, não há que se julgar escolhas.

Defendo uma vida mais simples, com menos verdades absolutas e mais respeito ao outro. Uma formação curricular perfeita não terá valor algum se o seu filho não aprender princípios éticos. De pouco adiantará a disciplina desenvolvida com o esporte se o seu filho não entender que as conquistas que realmente valem a pena não têm forma de troféu. As melodias das aulas de música só farão sentido se o seu filho aprender sobre ouvir com o coração. Os doces? Sorte de quem experimenta, de quem se lambuza, de quem se meleca, de quem faz bola coletiva de chicletes e tem histórias doces para contar. Meus filhos têm mãe imperfeita.


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