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Amor de mãe

12 de Abril, 2018

Chinelo 37, por Viviane Possato. Era só um chinelo arrebentado. Uma cena cotidiana

Eu, para variar, estava apressada enquanto Francisco mostrava as tiras soltas e reclamava que ia ter que sair descalço. Eu catei a bolsa e saí gritando pelo corredor: qual é mesmo seu número filho? Vou comprar na farmácia. “37, mamãe!”, ele gritou de lá. A resposta me causou um certo estranhamento, mas susto mesmo eu levei lá na farmácia quando peguei o par de chinelos nas mãos. Fiquei alguns segundos paralisada tentando entender o que havia acontecido com meu bebê. Isso é um pé de adulto. 37? Não pode. Liguei: “filho, dá uma conferida aí porque você deve ter se confundido. Você não calça 37 não, meu amor”. Foi quando ouvi o que meus olhos se negavam a enxergar.

Os filhos crescem. O tempo corre mais ligeiro do que a gente gostaria. De repente, aquela pressa toda que me fez sair de casa correndo perdeu o sentido. Os passos até o carro foram mais lentos. No caminho de volta para casa, não houve a rotineira inquietação com o motorista da frente que demorou a arrancar quando o sinal se abriu. O par de chinelos 37 jogado no banco do carro fazia latejar a certeza da finitude da infância e da vida. A urgência naquele momento era apenas encontrar uma resposta: o que estou construindo com o tempo que tenho?

Os quatro ou cinco quarteirões que separam minha casa da farmácia foram suficientes para me fazer revisitar uma vida inteira. Repassei a existência limpo. De forma especial, voltei minhas lembranças para os últimos dez anos. A gravidez difícil, os nascimentos, a luta pela sobrevivência no CTI, os primeiros passos, os primeiros dentes, as primeiras palavras, as alegrias, as dores, as reviravoltas da vida. Sorri, enquanto algumas lágrimas desceram pelo canto dos olhos. A nostalgia me fez lembrar das palavras da minha avó: “a vida passa rápido demais, minha neta” e o coração apertou mais do que eu gostaria. Senti culpa, medo, até duvidei de algumas escolhas. Mas cheguei em casa a tempo de não me arrepender de nada. Ufa. Ainda bem que moro perto da farmácia.

Francisco veio pelo corredor, pegou o par de chinelos, enfiou nos pés, me deu um beijo rápido no rosto e seguiu. Mais uma vez, o cotidiano tomou o lugar dos conflitos da existência. A essa altura, eu estava, de fato, atrasada para o trabalho e, também, precisei seguir meu caminho. É assim, com o correr da vida, que vamos nos esquecendo dos chinelos 37. Vamos deixando para depois aquela partida de futebol com as crianças, aquele momento só para eles, aquele aconchego sem pressa. Vamos nos esquecendo da finitude acreditando sempre que os chinelos vão se arrebentar mais uma vez. Seguimos com a arrogante certeza de que a vida nos dará outra chance. Tomara que as tiras ainda tenham conserto e que o par de chinelos ainda caiba nos pés.