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Formação intercultural: para além dos muros da escola

29 de junho, 2018
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A melhor coisa da minha vida. Um dos grandes questionamentos de quem vai morar fora, seja para fazer o colegial no exterior ou um curso de idioma, é o que vamos ganhar com essa experiência

Há mais de 15 anos temos orgulho de ter como parceira da INTERVIP a psicóloga intercultural Andrea Sebben, que treina todos os nossos intercambistas e pais para termos a certeza de que essa experiência de morar fora será um sucesso, não só para eles próprios, mas para todos os envolvidos. Acho que vale a pena compartilhar com você, leitor, um texto de autoria dela que esclarece bem isso tudo:

“Educação intercultural para a vida”
Desde alguns anos há uma tendência entre os jovens para a participação em programas de intercâmbio cultural, e falo especificamente daqueles com objetivos de estudo, como o colegial no exterior (high school), ou os cursos de idiomas com acolhimento em casas de família, que deveriam, em tese, ser sinônimos de educação intercultural. Entretanto, quais são de fato as benesses de fazer um intercâmbio desde o ponto de vista pessoal ou profissional, uma vez que muitos pensam nisso como via exclusiva de adquirir um novo idioma ou uma experiência internacional agregando-os ao currículo? Que ponto de vista tão estreito!

É importante alertar que participar de um programa de intercâmbio não significa necessariamente aprender um idioma, conhecer uma nova cultura ou aumentar as chances de empregabilidade como vaticinam as operadoras que os vendem. Pois o brasileiro que vai poderá perfeitamente encapsular-se nos guetos brasileiros presentes ao redor do mundo, poderá exarcebar tanto a convivência com os compatriotas que sequer a aquisição do novo idioma será possível de acontecer. Poderá, inclusive, voltar com seus preconceitos ainda mais arraigados e seus estereótipos ainda mais recrudescidos. Definitivamente, a participação num programa de intercâmbio cultural não é apenas o que a mídia vende.

Entretanto, quando se trata de Educação Intercultural há que sensibilizar desde o país de partida esses jovens para a verdadeira assunção de novos valores e novos pensares frente ao encontro intercultural. Há que haver discernimento, coragem, generosidade, recursos internos para a superação e a aprendizagem, sensibilidade intercultural para desenvolver e adquirir a maturidade – esses sim – objetos de desejo dos RH’s ao contratarem novos talentos. As empresas têm queixas sobre a formação dos jovens, mas, principalmente, a respeito do comportamento apresentado e é neste aspecto – comportamental – que o intercâmbio cultural é infinitamente mais eficaz do que qualquer dentro dos muros da escola.

A ênfase no aspecto humano, portanto, é o que reclamam os RH’s. Portanto, está claro que apenas um ou dois novos idiomas, um passaporte recheado de carimbos mais uma passagem pelo exterior são insuficientes quando o que se busca são pessoas de valor.

Trabalho no Treinamento Intercultural desses jovens e é notória a preocupação com a burocracia torpe dos traslados migratórios que estas agências e instituições de intercâmbio se preocupam em esclarecer nas chamadas “reuniões preparatórias”: a mudança de casa, a mudança de escola, a mudança de família e se esquecem, porém, da principal mudança: a de si mesmo. Isso é Educação Intercultural.

Há que se criar mais pontes e menos barreiras e através do aprendizado que esses encontros oferecem aprendemos a nos ajudar mutuamente, a sermos cidadãos do mundo, com respostas próprias, responsáveis e não copiadas, nem emprestadas, nem impostas. E aprendemos a viver num contexto democrático, de participação, de antecipação, de atrevimento, de liderança.  São valores alvo para a desejada empregabilidade e uma carreira exitosa.

Portanto o intercâmbio cultural deveria ser para cada jovem participante um audacioso convite para o rompimento de fronteiras sociais e cognitivas, rompimento de preconceitos, inseguranças e barreiras culturais que só geram miopia nos relacionamentos.  Deveria ser sinônimo de auto-conhecimento, reflexão, um repensar permanente sobre suas percepções, sobre seu modo de comunicar, pensar e agir. E por isso dá-se o nome de Educação Intercultural, enquanto parte de uma pedagogia “a partir do outro”, que se volta, porém para a si mesmo. E corresponde, portanto, a uma didática voltada para a reciprocidade, onde dentro das relações interculturais aprende-se muito sobre as próprias vivências. Mas também as vivências daqueles embebidos em valores distintos.

Por isso, sou uma entusiasta convicta dos programas de intercâmbio cultural que nos levam para além do racional. Eles nos fazem viver e desafiar nossos pensares e fazeres.  O que pode ser mais desafiador do que questionarmos nossas verdades, nossas crenças, nossos mitos e através disso experimentarmos a humildade intrínseca com que deveríamos tratar o conhecimento humano? O encontro intercultural permite isso: precaver-se contra a arrogância e tirania que nosso etnocentrismo intelectual pode produzir.

De que existe um crescimento e um enriquecimento pessoal durante o intercâmbio não há dúvidas. Mas os resultados vão além do plano individual e estendem-se ao social. Ao aprender aceitar e a conviver com a diferença, ao se sensibilizar com as minorias (minoria étnica no qual fará parte, subitamente), ao suplantar seus preconceitos e pudores e dar-se conta da interdependência e da necessidade que temos uns dos outros (experimentados na solidão própria da migração), uma noção nova de realidade submerge. Uma noção de cidadania e responsabilidade social – para consigo e para com o outro – que se estenderá na escola, na família, na empresa em que trabalhará.
Assim que defendo urgentemente a entrada da Educação Intercultural na formação de nossos jovens brasileiros como tema transversal presente nos programas de high school, dos cursos de idioma ou dos programas de mobilidade acadêmica . Isso para que possam ser parceiros importantes na consecução desse projeto de cidadania global no qual queremos ser partícipes.  Afinal de contas, se trata de nos conscientizarmos de que vivemos num mundo inter-relacionado, cujo dinamismo não pode ser compreendido de uma forma solitária. Mas com um sistema global de conhecimentos, atitudes e valores comuns tendo como base a razão de nossa existência: aprendermos a conhecer, a ser, a fazer e a viver juntos dentro e para além dos muros da escola.”

Andréa Sebben
A autora desse texto é psicóloga culturalista, membro da International Association for Cross-Cultural Psychology, especialista em Educação Intercultural pelo Council of Europe. Trabalha na preparação dos jovens de intercâmbio da INTERVIP há 15 anos.  Mestre em Psicologia Social pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e membro do Educational Advisory Council do AFS Internacional. Autora de diversos livros, artigos e pesquisas, Andréa já conduziu centenas de Treinamentos Interculturais no Brasil e no exterior, transitando confortavelmente entre diferentes públicos e ajudando-os nas suas experiências de viver fora do país: jovens de programas de intercâmbio, executivos expatriados e jogadores de futebol e suas famílias trasladados aos mais diferentes países. Andréa já treinou cerca de 15 mil jovens brasileiros para experiências no exterior.

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