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Crítica: A Casa Que Jack Construiu é, talvez, o filme mais importante de Lars Von Trier

01 de abril, 2019
Por: Helena Ivo
Fotos: Divulgação
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Cinema. O polêmico diretor dinamarquês Lars Von Trier, autor de filmes como “Ninfomaníaca”, “Melancolia”, “Anticristo” e “Dogville”, voltou aos cinemas em novembro de 2018 com “A Casa Que Jack Construiu”.

O longa, que passou despercebido por muitos e absolutamente não recomendado para menores de 18 anos, narra em 5 capítulos como Jack (interpretado por Matt Dillon), um inteligente engenheiro civil, se tornou um serial killer.

Como era de se esperar de um filme de Lars, o longa causou estranhamento do público por sua violência ou por – para alguns – soar misógino ou flertar com a admiração à Hitler, o que já havia causado o banimento do diretor no festival de Cannes anteriormente.

Opinião ou crítica satirizada?

Não demorou muito para que eu entendesse que a intenção de Von Trier aqui era ironizar o silêncio da sociedade para questões importantes, como o fato de pequenas ações poderem ajudar o mundo de forma geral, e mesmo assim as pessoas terem medo (ou falta de vontade) de fazer o pouco que podem.

Em A Casa que Jack Construiu, Lars Von Trier começa mesclando eufemismo ao chamar os assassinatos de “incidentes” e então passa a ilustrar sua opinião da forma mais explícita possível. O autor escancara para o público como nos calamos ou fechamos os olhos para situações que não deveríamos. A forma crua em que o diretor optou por mostrar já é uma característica comum em seus filmes, mas acredito que nesse caso essa frieza se tornou até mesmo necessária.

A atuação de Dillon está incrível. Eu o conhecia apenas de um episódio do hilário seriado “Modern Family” e me surpreendi com a seriedade que ele deu ao papel.

Mr. Sofistication, codinome que Jack usa para assinar seus crimes, é um assassino astuto, que mata homens, mulheres, crianças e idosos, mas acredita que se definir como um serial killer de mulheres traga mais atenção da polícia e do público.

Jack em uma das cenas em que planeja sua casa, construída do zero por ele mesmo

Por que é tão bom?

A violência explícita no longa é algo que aumenta gradativamente e fez com que muitos saíssem do cinema antes de terminar o filme, quando ele foi exibido pelo mundo.

No primeiro capítulo Jack descobre sua primeira vítima, interpretada por Uma Thurman (“Pulp Fiction” e “Kill Bill”), e depois acaba tomando gosto por matar, se tornando viciado nisso.

Contudo, mesmo sendo viciado também em organização e sempre limpando as cenas do crime antes de abandoná-las, Jack deixa alguns rastros. Ainda assim, ele acaba se aliviando quando recebe uma ajudinha da natureza ou de qualquer sorte para que não seja descoberto.

Há, por exemplo, uma cena (bem explícita e forte, diga-se de passagem) em que o personagem arrasta um cadáver por quilômetros, deixando um grande rastro de sangue para o corpo completamente desfigurado da vítima, mas não é encontrado pois uma tempestade lavou todo o sangue espalhado pelo trajeto.

Em vários outros momentos Jack chega a se certificar que deixou mais pistas como quando passa a fotografar os corpos assassinados em poses esdrúxulas – e ainda caracterizar tais fotos como arte. O protagonista do longa acredita veemente que a morte é um tipo de obra a ser apreciada e é daí que tira a ideia para sua façanha mais importante – e horripilante.

Algumas partes do filme causaram polêmica por flertarem com o que o ser humano pode fazer de pior. Muitos acreditam que Lars Von Trier defenda o nazismo em suas obras, ou que nesse longa tenha até mesmo tentado defender a mente de um psicopata, mas eu discordo.

Em “A Casa Que Jack Construiu”, o diretor dinamarquês mostra do que o ser humano é capaz e como muitos se calam para essa realidade, sendo cúmplices ou coniventes com as barbaridades que acontecem todos os dias, há milênios, banalizando-as.

Se tivesse citado também as guerras entre gregos e romanos ou persas, os horrores da idade média, do colonialismo ou das guerras e mortes entre qualquer povo com interesses diferentes, teria ilustrado de forma menos polêmica como a que fez através de imagens nazistas e stalinistas.

Em sua complexidade, parece que Lars Von Trier acertou mais uma vez em retratar a natureza humana da destruição e da impotência ou da falta de vontade coletiva de mudar tal realidade.

Nota: 10/10

Assista ao trailer:

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Crítica: A Casa Que Jack Construiu é, talvez, o filme mais importante de Lars Von Trier
5 (100%) 9 voto[s]


Sobre Helena Ivo:

Helena Ivo, redatora, 24 anos. Graduanda em Jornalismo pela PUC Minas, especialista em Marketing de Relacionamento, Eventos e Comunicação Empresarial pelo Instituto Superior de Comunicação Empresarial de Lisboa e em Produção de Conteúdo para a Web e Marketing de Conteúdo Avançado pela Universidade Rock Content. Já foi assessora de imprensa na Agenda Comunicação Integrada e social media em agências de Comunicação Empresarial. Apaixonada por cultura, já fez cobertura de eventos empresariais e shows nacionais e internacionais como Humberto Gessinger, Lana Del Rey e Kings of Leon. Atualmente é redatora no Jornal da Cidade BH e nas horas vagas é crítica de cinema e séries no Mundo Hype.