Jornal da Cidade BH | Notícia boa também dá audiência!

Sobre amar e saber amar

13 de julho, 2018
Jornal da Cidade BH Notícia boa também dá audiência!

Saúde é aquela história: a gente tem e nem bota reparo, mas vai ela falhar pra ver.

Por Viviane Possato

A gente se agarra a tudo quanto é santo. Doença faz até ateu passar água benta na testa. Vai que, né? A gente faz simpatia, busca erva curandeira no Google e fica carente. Carente de colo, de cafuné, de sopa de mãe, de risada de amiga. Carente e ponto. Carência é direito adquirido de doente.

Outro dia, peguei esse tipo de carência. E a mãe, que também é filha, quis não precisar cuidar de filho. Desejei não ter que me levantar para fazer café, não acompanhar tarefa de escola, não administrar briga de irmão, não levar filho ao dentista. Nossa, como desejei! Por alguns minutos, quis voltar para o lugar de quem apenas se recosta no peito do outro.

Teria chorado esse dia. As lágrimas até ensaiaram descer, mas foram interrompidas abruptamente. Enquanto desejava não cuidar, o cuidado me chegou. Enzo e Francisco entraram no meu quarto carregando desengonçadamente uma bandeja de café da manhã e perguntando: “está melhor, mamãe?” A bandeja tinha mamão picado, geleia de amora, torradas e bilhetes cheios de coração, me fazendo lembrar que eu ensinei cuidar. Meus filhos, de dez anos, aprenderam sobre o amor.

Não que a gente ame apostando na lei do retorno. Mas se tem uma coisa que esse universo devolve é amor. E é deliciosa a colheita. Na minha casa, a gente deixa recadinhos de amor perto da xícara de café, a gente aperta a bochecha um do outro, a gente se espreme debaixo do cobertor até sentir calor. A gente fica junto, no clichê da alegria e da tristeza. Aprendi assim, ensinei assim. E assim seguimos perpetuando o amor que sabe amar.

Amar é aprendizado. É sentimento que brota no coração, mas só se fortalece na ação. Amor precisa ser sentido com as mãos, precisa ser traduzido em palavras e refletido no fundo dos olhos. Sentir não basta. Tem que amar e saber amar. Tem que mostrar, tem que dizer, tem que aconchegar, tem que amparar. Tem, senão é melhor nem ter. Amar sem saber amar não acrescenta.

Um dia cheguei a pensar que quanto mais a gente se doa, maior o risco da desilusão. Sofri querendo camuflar o que tenho de mais bonito até decidir que, no meu peito, amor não se esconde. Se ele quiser, que busque outro esconderijo. Não faço morada para o medo. Amor eu sinto e mostro. É a minha verdade.

Ah, filhos! Naquele dia o meu peito se encheu de gratidão. O café estava delicioso. Tive coragem para me levantar e enfrentar o que era preciso. A vida vai ensinar a vocês que a gente se fortalece é no caminhar. E na certeza de que as pernas podem até bambear (e bambeiam), mas se aprumam melhor quando existe amparo. E só sabe amparar, meus filhos, quem entende de amor.

Foto: Divulgação


Sobre Viviane Possato:

Viviane Possato, repórter e escritora, 43 anos. Jornalista com 20 anos de experiência em redações e assessorias de imprensa. Formada em Jornalismo (1998) e Relações Públicas (1999) pela PUC-MG. Cursou pós-graduação em Políticas Públicas (2005) e em Formação Política e Econômica da Sociedade Brasileira (2000). Trabalha como repórter de televisão há 17 anos e é colunista do Jornal da Cidade desde 2014.

Seja o primeiro a comentar

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se identificar algo que viole os termos de uso, denuncie.
Avatar
Deixe um comentário