Jornal da Cidade BH | Notícia boa também dá audiência!

Perdão, meu filho

12 de setembro, 2019
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Amor de Mãe. Estava pensando na primavera que se aproxima e nos meus filhos que andam querendo florescer

Outro dia, levei um susto danado ao correr os olhos nas trocas de mensagens do Francisco com os colegas da escola. Sim, sou do tipo que faz blitz no celular e me recuso a discutir direito à liberdade com uma criança de 11 anos. Sou mãe, tenho autoridade e faço uso dela quando se faz necessário. Voltando à troca de mensagens, confesso que perdi a respiração. Li, reli, li outra vez e me perguntei perplexa: cadê meu filho?

Da tela saltavam palavras e expressões que nunca ouvi da boca dele, percebi comportamentos que jamais havia enxergado, descobri um desconhecido habitando o corpo do meu filho. Desliguei o celular e fui dormir chorando de soluçar. Naquele instante o destino me parecia inevitável: a criança doce se transformaria num adolescente rebelde sem causa. Tive pesadelos escabrosos.

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Acordei com olhos inchados de chorar, mas cumpri o ritual da manhã. Fiz café, esquentei o pão, me lembrei de pegar o lanche que eles sempre deixam para trás e seguimos para a escola. Em silêncio. Fiquei muda por mais de uma semana. Não briguei, não conversei, mas, internamente, processei. Comecei me perguntando o que exatamente havia de tão absurdo nas mensagens e a resposta foi simples: nada. Havia apenas um filho que não é mais um bebê. Havia apenas um filho sendo pré-adolescente. Havia apenas um filho se descobrindo crescido. Havia simplesmente uma mãe despreparada pra ver o filho florescer.

Logo eu? Eu que sempre fui tão atenta. Eu que acompanho cada passo. Eu que sou tão sensível aos olhares, aos sentimentos. Logo eu? Sim. Logo eu. Uma mãe como qualquer outra que se recusa a tirar os filhos do colo. Uma mãe como tantas que não sabe deixar os filhos darem os próprios passos. Uma mãe igual a muitas que sofre ao pensar que um dia vai ter que deixar os filhos irem.

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Desculpa, filho. Eu não me preparei para isso. Não me preparei para sua primavera. Não achei que seu florescer chegaria tão rápido. E doeu em mim te perceber indivíduo. Não há nada de errado nas suas conversas. Não há nada demais no seu comportamento. Tudo segue conforme o ciclo da vida (e dos hormônios).

Escrevo enquanto ainda tento entender os sentimentos e acalmar meu avesso. Prometo tentar permitir que você voe a rota que planejar. Deleite-se com o frescor da vida que floresce. Descubra-se. Meus braços serão abrigo toda vez que a vida se fizer dura demais. Meu colo é seu. Meus conselhos e meu silêncio também. Serei guia, serei amparo, serei torcida, serei correção, mas jamais serei obstáculo. Plante seu próprio jardim. Criamos boas raízes, agora floresça.

Perdão, meu filho
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Sobre Viviane Possato:

Viviane Possato, repórter e escritora, 43 anos. Jornalista com 20 anos de experiência em redações e assessorias de imprensa. Formada em Jornalismo (1998) e Relações Públicas (1999) pela PUC-MG. Cursou pós-graduação em Políticas Públicas (2005) e em Formação Política e Econômica da Sociedade Brasileira (2000). Trabalha como repórter de televisão há 17 anos e é colunista do Jornal da Cidade desde 2014.

4 Comentários

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    Aline 16 de setembro de 2019

    Sensacional! Mais real impossível. Estamos juntas!

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    Alice 13 de setembro de 2019

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    Alice 13 de setembro de 2019

    Não acho que o susto em descobrir uma criança com pensamentos de adolescente seja simples engano de mãe protetora. O que ocorre é que a puberdade tem vindo cada vez mais cedo historicamente, trazendo junto com seus hormônios um amadurecimento precoce. Não estamos preparados como país porque realmente é cedo demais. Qual o culpado? Nossa alimentação artificial, baseada em carboidrato refinado: farinhas, açúcar, leite.

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    Textos muito sábios!Me identifiquei totalmente nesta posição maravilhosa e as vezes sofrida(pois quem ama sofre) de mãe! 13 de setembro de 2019

    👍👍👍

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