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O cheiro da Semana Santa

11 de abril, 2019
Jornal da Cidade BH Notícia boa também dá audiência!

Amor de mãe. A memória afetiva se forma de muitas maneiras e o cheiro, para mim, é a mais infalível delas

Semana Santa aparece no calendário e eu já começo a sentir aquele aroma de vela queimada. E é start para revisitar um passado que me enche de saudade.

Quando eu era pequena, meus avós maternos moravam numa cidadezinha chamada Ervália, lá na Zona da Mata mineira. E todo feriado santo minha família trocava o corre-corre da capital pelo sossego do interior. Meu avô tinha uma casa grande na praça principal. Um símbolo do contraditório. Era vizinho da igreja matriz e da boate da cidade. De um lado, o pecado, do outro a salvação.

Na Semana Santa tinha missa campal e a praça se enchia de fiéis atentos à pregação do Padre Joaquim e aos rituais de morte e ressurreição de Cristo. O padre mal dava a benção final e já começava o batido da música eletrônica convidando quem estava mais preocupado em salvar o corpo do que a alma.

Enquanto fui criança minha única opção era acompanhar a missa pela varanda e depois seguir a procissão. A diversão era cortar rodelas de papelão para enfiar a vela e proteger as mãos dos respingos de parafina. Quando virei adolescente, comecei a achar o vizinho esquerdo, das batidas eletrônicas, bem mais interessante. Minha mãe dizia que era tentação e me mandava prestar atenção à missa.

Foram muitos anos vivendo as mesmas experiências. Ouvindo o mesmo Padre Joaquim, acompanhando o movimento das beatas de sempre, fazendo o trajeto religioso que partia da praça, passava pela estrada velha e retornava à igreja matriz. Nada mudava. Aliás, ainda deve ser assim.

Eu cresci, meus avós morreram, a casa foi demolida. Já faz alguns anos que não visito o interior que me traz tantas lembranças boas. A cidade grande, onde moro, tem rituais católicos também, claro. Mas com outros cheiros. Quando a procissão acaba, não me assento à mesa grande cheia de primos ávidos pelos quitutes da vovó Zizita. Não existe o burburinho dos adultos que contam casos e celebram o encontro. Não há mais aquela espera ansiosa pelo domingo de Páscoa, quando a alegria era finalmente liberada. Na Sexta-feira da Paixão e no Sábado de Aleluia vovó cumpria o rito da sobriedade.

Por tudo isso, quando percebo a chegada da Semana Santa meu coração se aperta de saudade. Na cidade grande, faço o que posso para que o cheiro do feriado santo seja forte assim também para os meus filhos. Independentemente da religião, quero que eles sejam impregnados pela alegria de estar junto de quem a gente ama. As penitências, as procissões, as missas, os rituais serão escolhas individuais. Não interfiro nelas.

Mas cabe a mim construir histórias que lá na frente eles queiram revisitar. A memória do coração se fortalece nas vivências e nos afetos que elas carregam. Afetos que ensinam a perceber o cheiro raro de uma vela queimada.


Sobre Viviane Possato:

Viviane Possato, repórter e escritora, 43 anos. Jornalista com 20 anos de experiência em redações e assessorias de imprensa. Formada em Jornalismo (1998) e Relações Públicas (1999) pela PUC-MG. Cursou pós-graduação em Políticas Públicas (2005) e em Formação Política e Econômica da Sociedade Brasileira (2000). Trabalha como repórter de televisão há 17 anos e é colunista do Jornal da Cidade desde 2014.

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