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O amor desnecessário

10 de outubro, 2019
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Amor de Mãe. Tenho filhos gêmeos, com personalidades opostas e tempos distintos

Francisco já desabrochou. Tem andado suspirando pelos cantos. Vive com os olhos grudados no celular e pensamento vagando sabe se Deus por onde. Enzo fincou o pé na infância.
Dia desses, num café da manhã de sábado, a prosa foi fluindo sem pressa e descambou pras coisas do coração. “Filho, você já tá olhando meio diferente pra alguém da sua escola?”. “Não, mamãe.

Eu não gosto de ninguém, se é isso que você quer saber”. Enzo sempre foi perspicaz. Retruquei dizendo que um dia ele vai gostar de uma pessoa e já fui logo adiantando que eu gostaria de saber quando isso acontecesse. Foi quando ouvi a resposta que me paralisou durante alguns minutos: “Tá bem, mamãe. Mas por enquanto, acho bem desnecessário gostar de alguém”.

Não parei mais de pensar sobre o amor desnecessário. Num primeiro momento, analisei: nossa, o livro que li sobre como educar um filho com autoestima funcionou. Esse menino se ama tanto que se basta. Palmas para mim e para ele. Ufa, posso passar pro próximo capítulo.

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Depois, fiquei imaginando os amores desnecessários que já vivi. Tantos! Teria evitado muito desassossego se aos 20 anos de idade tivesse a sabedoria do meu filho de 11. Não teria acreditado em juras sem lastro, meus olhos não teriam brilhado com palavras desconectadas do coração, amores rasos jamais teriam feito moradas tão profundas em mim. Senti aquela vontade sorrateira de voltar no tempo e suspirei apaixonada pelos amores desnecessários.

O café já tinha até esfriado quando eu fitei os olhos do meu filho e disse sem pestanejar: o amor nunca é desnecessário, meu pequeno. É na entrega que a gente se fortalece. É o amor que nos torna melhor, sempre. Ainda que o outro não esteja preparado para receber o que oferecemos com tanta verdade.

Enzo, um dia o compasso do seu coração será diferente e você vai entender que amor chegou. Permita que ele se instale. A vida só faz sentido assim. Entregue o que tem de mais bonito, a gente nunca perde amando. Haverá dores, desilusões, incompreensões. Amar machuca. Mas eu te asseguro que de todas as necessidades da vida, essa é a mais bonita. É pelo caminho do amor que nossas verdades ganham raízes e se aprofundam em valores que devemos reverenciar.

Quando doer, aprenda com as dores. As decepções nos fortalecem. E nunca se esqueça: a vida tem mais poesia com os amores, os necessários e os desnecessários.


Sobre Viviane Possato:

Viviane Possato, repórter e escritora, 43 anos. Jornalista com 20 anos de experiência em redações e assessorias de imprensa. Formada em Jornalismo (1998) e Relações Públicas (1999) pela PUC-MG. Cursou pós-graduação em Políticas Públicas (2005) e em Formação Política e Econômica da Sociedade Brasileira (2000). Trabalha como repórter de televisão há 17 anos e é colunista do Jornal da Cidade desde 2014.

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