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Mãe de vida real

16 de maio, 2019
Por: Viviane Possato
Foto: Cacá lanari
Jornal da Cidade BH Notícia boa também dá audiência!

Amor de mãe. Filho vira a gente do avesso. E todo avesso é amarrotado

Portanto, acredite, não existe perfeição na maternidade. A poesia adora criar rimas com os corpos que se transformam pra gerar uma vida, mas vai sentir isso na pele? A palavras do poeta perdem completamente a delicadeza quando você está abraçada a um vaso sanitário colocando pra fora o que nem imaginava que existia dentro do seu estômago. E os enjoos são apenas os primeiros sinais de realidade batendo à sua porta. O corpo deixa de ser seu durante bem mais do que nove meses e essa generosidade feminina custa a privação de muita coisa.

Sim, mães costumam ser generosas. Mas é preciso desmistificar a gestação. A mulher lindamente barriguda das redes sociais tem vontade de fazer xixi toda hora, não encontra posição na cama na hora de dormir, sente dores nas costas, tem os pés inchados, a pele cheia de estria e muitos outros incômodos que não são descritos, nem fotografados.

E quando os filhos nascem? Eles saem do útero decretando o fim da sua liberdade. Eu chego a sentir saudade do tempo em que a única coisa que eu precisava dividir era meu corpo. Agora, compartilho meu tempo, meu dinheiro, minhas noites de sono, meus projetos de vida, meus sonhos…. E aí a gente olha aquele comercial de margarina e se pergunta: essas mães nunca sentiram vontade de sair correndo, sem nem deixar bilhete de despedida? Na minha casa, onde a vida é real, nossos cafés da manhã têm remela nos olhos, bafo, cabelo desgrenhado e correria contra o relógio.

Ser mãe não é ter uma foto linda de porta retrato. Ser mãe desinquieta a rotina e o coração. Escolhemos deixar de lado uma parte do nosso próprio querer em razão de um querer maior. Abdicamos. Muito. E essas escolhas nos custam sim. Eu não acredito em conto de fada, menos ainda na mulher maravilha. Não sou princesa, nem personagem infalível de cinema. Sou mulher cheia de contradições. Escolhi ser mãe e esse é o amor mais lindo que carrego no peito. Mas nem sempre consigo oferecer o sorriso que eles precisam, o olhar cheio de doçura, a palavra de incentivo que não abala a autoestima. Muitas vezes perco a paciência, sou consumida pelo cansaço, tenho vontade de me esconder debaixo da cama pra não ouvir a palavra ‘mãe’. Já até engoli um chocolate inteiro pra não ter que dividir com meus filhos. Essa é minha vida de verdade. Sabe o que é mais bonito nisso tudo? É que meus filhos continuam acreditando que eu sou a melhor mãe do mundo. E eu, que conheci meu avesso, descobri que as imperfeições também têm lá sua poesia.

Mãe de vida real
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Sobre Viviane Possato:

Viviane Possato, repórter e escritora, 43 anos. Jornalista com 20 anos de experiência em redações e assessorias de imprensa. Formada em Jornalismo (1998) e Relações Públicas (1999) pela PUC-MG. Cursou pós-graduação em Políticas Públicas (2005) e em Formação Política e Econômica da Sociedade Brasileira (2000). Trabalha como repórter de televisão há 17 anos e é colunista do Jornal da Cidade desde 2014.