Jornal da Cidade BH | Notícia boa também dá audiência!

Iguais e diferentes

13 de julho, 2017
Jornal da Cidade BH Notícia boa também dá audiência!

Amor de mãe. Eles dividiram a barriga, o alimento, o afeto. Chegaram ao mundo com uma diferença de dois minutos

Têm o mesmo signo, regido pelo mesmo planeta. De mim, receberam a mesma educação. Cresceram ouvindo os mesmos sermões, o que não pode pra um, não pode pro outro. Na minha casa, a regra é única, o princípio moral o mesmo.
Meus filhos são gêmeos e gêmeos têm uma sintonia linda de se observar. Quando eles eram bebezinhos e eu entrava no quarto de madrugada pra ver se tudo ia bem (sim, mãe tem dessas loucuras) eu me deparava com uma cena de arrepiar: eles mexiam na cama no mesmo segundo, virando pro mesmo lado, se ajeitavam e suspiravam juntos. Na primeira vez pensei: coincidência! Que nada. Eles estão com nove anos e até hoje vejo o mesmo remexer durante as madrugadas. Ainda acho graça ao vê-los correndo pro banheiro ao mesmo tempo. A dor de barriga vem em dose dupla! E no restaurante self service? Pratos idênticos, os mesmos gramas, os mesmos centavos a pagar! Incrível.
Iguais? Não, opostos! Não é exagero de mãe. O-pos-tos. Sol e lua. Água e fogo. Doce e azedo. Um é grude, o outro corre de abraço. Um é perfeccionista, responsável. O outro? Malandro, leva a vida na flauta. Um é flexível, se molda com o que tem, enquanto o outro é ferro, quando decide, não arreda o pé.
Às vezes, tanta diferença ecoa em berros: “eu quero ser sozinho!!!!!” Eu interfiro, peço calma, tento mediar o conflito, mas no fundo, no fundo, acho graça e penso cá com meus botões: reivindicação justa essa! Afinal de contas, a aceitação da diferença passa pela descoberta da individualidade. É olhando pra dentro que a gente se descobre por inteiro, sem a sombra do outro, sem o exemplo do outro, sem a expectativa do outro. Amadurecer é verbo que se conjuga na solidão.
A maturidade nos ajuda a enxergar melhor a beleza que existe na diferença. É com maturidade que a gente se despe dos julgamentos, da arrogância, da falta de modéstia. Diferente não é melhor. Diferente não é pior. Diferente é diferente. Não é igual. Apenas isso.
É na aceitação da diferença que a gente se aproxima do outro de forma mais verdadeira e as relações de amor só se constroem quando existe verdade. Eu aprendi que a gente não deve olhar pro outro esperando que ele seja espelho. O outro deve ser enxergado como ele é, sem imposições de mudança, com respeito às escolhas e aos caminhos que não são nossos. Acho lindo ver os meus filhos aprendendo a seguir de mãos dadas, em compassos completamente descompassados.

Texto: Viviane Possato

Iguais e diferentes
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Sobre Viviane Possato:

Viviane Possato, repórter e escritora, 43 anos. Jornalista com 20 anos de experiência em redações e assessorias de imprensa. Formada em Jornalismo (1998) e Relações Públicas (1999) pela PUC-MG. Cursou pós-graduação em Políticas Públicas (2005) e em Formação Política e Econômica da Sociedade Brasileira (2000). Trabalha como repórter de televisão há 17 anos e é colunista do Jornal da Cidade desde 2014.

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