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Amor de gêmeos

14 de junho, 2018
Jornal da Cidade BH Notícia boa também dá audiência!

Amor de mãe, por Viviane Possato. Não me pergunte se é energia, sinergia, afinidade, espiritualidade, campo magnético, corpo físico. Não sei a razão, a explicação, a origem

Sobre amor de gêmeos, sei apenas o que testemunho. E asseguro: não existe amor igual.

Enzo e Francisco nasceram prematuros e foi no CTI que comecei a me dar conta das singularidades dessa conexão. No hospital, eles passaram por muitos perrengues, mas nunca ao mesmo tempo. Um só tinha recaída quando o outro dava sinais de melhora. Foi assim nos três meses de internação. Como se entendessem que a mãe, naquele momento, não podia ser disputada. E aí fui aprendendo sobre generosidade.

Em casa, houve cólicas combinadas, choros simultâneos, pirraças duplas, mas eles sabiam exatamente o momento de parar a competição de colo. E nem precisava medir a febre do irmão.

Ano após ano, fui aumentando a coleção de momentos curiosos. Sabe aquela suspirada gostosa no meio da madrugada para ajeitar o corpo no berço, mudando de posição? Podia marcar no relógio. Enzo e Francisco não falhavam. Viravam os corpinhos ao mesmo tempo, sempre. Vontade de fazer xixi? No mesmo minuto. Até hoje correm juntos pro banheiro. E restaurante self service? Um escolhe macarrão. O outro arroz com feijão. Na hora de pesar? Igual. Peso idêntico. Mesmo grama.

E são cúmplices, né? Quando eram pequenininhos, combinavam as travessuras pelo olhar. Um dia explodiram a tomada do quarto. Eu nunca soube o que, de fato, aconteceu. E assim fui aprendendo sobre lealdade.

Sustos? Nossa. Foram muitos. Um deles por descuido meu. Enzo e Francisco abriram a caixa de remédios. Francisco pegou o frasco de bolinhas homeopáticas, mas não abriu. Enzo escolheu a caixa de tarja preta e bebeu rivotril. Se existe mesmo anjo da guarda tenho certeza de que ele é mais poderoso do que a cumplicidade de gêmeos. Não sei como, nem o porquê, mas Francisco percebeu a gravidade e, num gesto raro, delatou o irmão. E assim aprendi que mães precisam se perdoar. Não foi fácil.

A verdade é que eles já se salvaram muitas vezes. Um dia, Francisco estava prestes a tomar uma agulhada na sala de vacinação quando Enzo começou a chorar sem parar. Tive que interromper a técnica de enfermagem para ver o que estava acontecendo e acabei me dando conta de que estava vacinando o menino errado. Fran já havia tomado a dose. Tempos depois, em uma das muitas madrugadas em claro, quase troquei as mamadeiras. Enzo tomava um leite especial porque tinha intolerância à lactose. Se não fosse Francisco acordar chorando, o irmão teria tomado a mamadeira errada. Comecei a aprender que para algumas coisas a gente simplesmente não encontra explicação lógica.

É assim, observando esse amor, que vou aprendendo a ser mãe de gêmeos. Um amor que tem sua própria história, suas próprias conexões. Um amor que ultrapassa a lógica, que parece pulsar no universo antes de chegar ao coração. Um amor que gerei, mas que não me pertence. Um amor do qual sou apenas espectadora. E assim sigo aprendendo que amor, para ser amor mesmo, carece de desapego.

Foto: Divulgação


Sobre Viviane Possato:

Viviane Possato, repórter e escritora, 43 anos. Jornalista com 20 anos de experiência em redações e assessorias de imprensa. Formada em Jornalismo (1998) e Relações Públicas (1999) pela PUC-MG. Cursou pós-graduação em Políticas Públicas (2005) e em Formação Política e Econômica da Sociedade Brasileira (2000). Trabalha como repórter de televisão há 17 anos e é colunista do Jornal da Cidade desde 2014.

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