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“A arte brasileira está em plena expansão no mercado internacional”

02 de dezembro, 2017
Jornal da Cidade BH Notícia boa também dá audiência!

Empresário à frente da Galeria Periscópio fala sobre os desafios e características do mercado de arte no Brasil

O mercado de arte contemporânea do Brasil ainda é jovem, mas já é reconhecido por seu dinamismo, além de estar em um reconhecido processo de expansão e internacionalização.  Conforme dados da última pesquisa Setorial Latitude 2016, o ano de 2015 (último avaliado) foi o que registrou a maior representatividade de vendas para o mercado internacional, quando 20% dos negócios envolveram clientes de fora do País.
A partir dos anos 1990, com a abertura dos mercados internacionais para a arte periférica, que é o caso brasileiro, o setor viveu um grande crescimento. As galerias se profissionalizam, passando a agenciar a carreira do artista, fomentando sua valorização simbólica e econômica.

Para falar sobre o mercado de arte no Brasil e sobre a importância das galerias, o JORNAL DA CIDADE conversou com o sócio diretor da Galeria Periscópio de Arte Contemporânea, Rodrigo Mitre. Confira:

JORNAL DA CIDADE A crise impactou o mercado de arte no Brasil?
Rodrigo Mitre A crise impactou o cotidiano de qualquer brasileiro e não foi diferente para o mercado de arte, registrando uma retração nas vendas a partir de 2015. De 2009 a 2015, o mercado nacional de arte cresceu paulatinamente, tanto internamente, quanto internacionalmente. As vendas internas representam quase 75% do volume de negócios das galerias, conforme pesquisa organizada por César Cunha Campos, em livro publicado pela Fundação Getulio Vargas, “Arte e Mercado no Brasil”. Entretanto, os 25% de vendas no mercado internacional revelam que a arte brasileira, por ser ainda jovem e periférica, já é um ativo muito barato e de ótima qualidade em comparação à arte americana e europeia.

Como está o mercado atualmente?
O mercado vislumbra a retomada das vendas, pois acreditamos que será um dos primeiros a retomar sua atratividade. É claro que quem coleciona arte sempre dá um jeitinho de comprar alguma obra para sua coleção, mesmo que seja mais em conta. Também existe uma nova safra de colecionadores, de 25 a 35 anos, dispostos a manterem uma bela coleção de arte contemporânea.

No mercado internacional, como está o panorama?
De acordo com uma pesquisa da TEFAF – Art Market Report 2017, os EUA continuam a ser o maior país do mercado mundial de arte, com uma participação de mercado de 29,5%, seguido pela Inglaterra com 24% e pela China com 18%. A Europa continua sendo o maior exportador de obras de arte, colecionadores e antiguidades, conforme definido pelas Nações Unidas. O volume negociado em 2016 chegou a 47 bilhões de dólares.

Existe um processo de internacionalização da arte brasileira? 
A arte brasileira está em plena expansão no mercado internacional e os artistas contemporâneos brasileiros já estão em grandes instituições respeitadas mundialmente apresentando seus trabalhos. Os artistas já falecidos também estão ganhando reconhecimento internacional, como Hélio Oiticica, Lygia Clark, Ligia Pape, Tarsila do Amaral, Amilcar de Castro e os fotógrafos modernistas do início do século passado, todos com grandes exposições nos EUA e Europa, em instituições como o MOMA de NY, adquirindo inclusive obras para o acervo da instituição. Ao avaliar que o Brasil representa 3% do PIB mundial e que, em 2015, segundo pesquisa Apex -Brasil, 1% destes 47 bilhões de dólares foi transacionado por brasileiros em compras ou obras nacionais, creio que, como o PIB, a arte brasileira poderá atingir um patamar de 3% em transações.

De um modo geral, você acha que é difícil viver de arte no Brasil?
Ser empreendedor no Brasil é muito difícil. Como galerista e empresário, que abriu uma galeria em pleno início de crise, entendo que a dificuldade nos fortalece. Vejo o artista como um idealista criador. É uma necessidade fazer arte. Nós, galeristas, vivemos e nos alimentamos dos sonhos dos artistas que sempre serão a razão de uma galeria existir. A arte contemporânea de qualidade dialoga com o nosso tempo presente, ou seja, mais do que nunca, o espaço é essencial para refletir sobre o que nos acontece e instiga a nos posicionar diariamente.

Você acredita que a arte é menos valorizada aqui no Brasil do que é em outros países?
A arte brasileira tem grande qualidade e ganha um papel de destaque no mundo. Acredito que estamos vivendo momentos difíceis e bem preocupantes, mas a arte brasileira está desempenhando um belo e importante papel de resistência a movimentos bem conservadores, que não querem e nem gostam do diálogo. Se for só por isso, já é transformadora e eficiente, pois está despertando vários assuntos, considerados tabus para a sociedade. Quem, um dia, não conheceu nossa história e artistas, começa a ouvir falar em Hélio Oiticia e Lygia Clark, Adriana Varejão e Antônio Obá.

Quem é o público de arte no Brasil?
Temos alguns centros consumidores de arte mais desenvolvidos que outros. Por exemplo, São Paulo representa quase 60% do público consumidor, onde está uma concentração de grandes instituições privadas e públicas com excelentes acervos. Os colecionadores paulistas são envolvidos com as instituições e fortalecem o mercado e a formação de público. A maior feira de arte da América Latina acontece no Brasil e é em São Paulo. Rio de Janeiro e Minas Gerais vêm em seguida, com média de 14% de mercado cada estado. Posteriormente, entram cidades como Salvador, Recife e Brasília como mercados promissores. O perfil desse consumidor é de grandes instituições públicas e privadas, empresários e profissionais liberais.

Qual o segredo para identificar boas obras para compor o acervo?
A galeria de arte contemporânea trabalha artistas com pesquisas relevantes e que dialoguem com o tempo presente. Não é uma ciência exata e, muitas vezes, a escolha está relacionada a uma direção estabelecida pela própria galeria. Uma arte mais politizada ou com qualquer outro tema, independentemente de ser pintura, fotografia e/ou performance. Na Periscópio, estabelecemos trabalhar com a junção dessas linguagens, artistas politizados e com pesquisas relevantes que dialoguem com a cidade e com as pessoas de nosso tempo. Não é uma equação, é mais uma intuição.