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Ao mestre, com carinho

Era uma manhã de terça-feira, quando Francisco e Enzo acordaram ouvindo meus soluços. Os olhinhos assustados perguntavam sem precisar de palavras. Respondi: “a mamãe perdeu um amigo muito especial”. Eles me envolveram em um abraço forte como se quisessem dizer: “a gente também te dá colo, mamãe”. Eu me amparei no amor de filho com a certeza de que as relações precisam ser construídas com verdade, desde sempre. Quero que meus filhos cresçam entendendo que a dor é parte da vida, que existem partidas que nos roubam o ar e que leva tempo pra gente conseguir suspirar sem angústia.
Aquela terça-feira é muito recente e a vida ainda parece fora do lugar. A partida de alguém que amamos sacoleja tudo. De repente, o que parecia tão importante passa a não ter tanto sentido, a gente perde a pressa, inverte as prioridades, deseja que o tempo volte pra terminar a frase que ficou incompleta, pedir a desculpa que o orgulho impediu, dar o abraço que foi ficando pra depois até se perder pra sempre. A gente sempre acha que vai ter mais uma chance até ser apanhado pela finitude.
Mestre, essas palavras não te alcançam mais, mas preciso escrevê-las. Escrevo por gratidão. Conheci o Artur Almeida quando entrei para a Globominas, em 2003, e me lembro da primeira vez que ele me chamou numa entrada ao vivo: “vamos falar com a repórter Viviane Possato ….”. Pensei: nossa, que honra! Desde a época em que eu era estudante de jornalismo, admirava a seriedade com que o Artur cobrava respostas das autoridades. Um mestre incansável na busca do jornalismo com olhar social. Como era legal ver a essência do jornalismo brilhando nos seus olhos, apesar dos pesares.
Os anos de convivência na redação me fizeram enxergar um pouco mais: que ética rara você carregava, meu caro. Que privilégio conhecer alguém assim, tão inflexível nas questões em que não deve haver espaço para o “talvez”. Levei um tempo para ver que, em você, seriedade não era sinônimo de sisudez. Que humor delicioso você tinha!
Mas foi esta coluna, “Amor de mãe”, que me levou para mais perto de você e me fez conhecer uma generosidade incomum.  Que pena não ter tido tempo de dizer obrigada. Obrigada por querer ler a coluna antes de todo mundo e por apontar de forma tão respeitosa as mudanças que considerava necessárias. Obrigada por ser tão elegante quando eu não “obedecia” às suas considerações. Obrigada por me incentivar tanto, tanto, tanto! Obrigada por querer ajudar, sem esperar nada em troca.
Ai, mestre, reencontrar o sentido do jornalismo ficou mais difícil agora. Mas, a gente vai seguir buscando o exemplo de seus passos, apesar dos pesares. Complicado mesmo vai ser aprender a te encontrar só no passado. O tempo vai se encarregar disso, eu sei. A serenidade vai tomar o lugar da angústia e, aos poucos, a vida se rearranja. O lamento por ter sido tão breve vai ficar no coração, mas não será maior do que a gratidão por ter feito parte da minha caminhada. Que honra, mestre!

Foto: Cacá Lanari
Texto: Viviane Possato, jornalista, mãe de Enzo e de Francisco – Coluna Amor de Mãe